A classificação de riqueza mais utilizada em análises de equidade baseadas em pesquisas domiciliares é a que se fundamenta no índice de riqueza, gerado por meio da análise de componentes principais (Filmer e Pritchett, 2001). Essa abordagem leva em consideração as diferenças na importância de determinados bens para famílias urbanas e rurais. As variáveis usadas para calcular o índice incluem bens domésticos (como fogão, bicicleta e carro), materiais de construção da casa (como piso de madeira, paredes de alvenaria e telhado corrugado) e acesso a serviços essenciais (como saneamento e energia elétrica). A pontuação inclui o conjunto de dados originais da pesquisa e é calculada seguindo uma metodologia padrão (Rutstein, 2008; Rutstein e Johnson, 2004). Os domicílios das amostras são classificados a partir dessa pontuação em cinco ou dez grupos de tamanhos iguais (quintis ou decis). Mesmo sendo uma abordagem muito útil e bastante utilizada, ela tem uma limitação importante: trata-se de uma classificação relativa de riqueza. Funciona bem em uma pesquisa específica, mas, ao trabalharmos com múltiplas pesquisas, pode acontecer de o grupo mais pobre de um país ter um nível de riqueza superior ao do grupo intermediário ou mesmo do mais rico de outro país. Portanto, essa abordagem é adequada para entender as desvantagens enfrentadas pelos mais pobres em um país, mas não permite avaliar o impacto da riqueza na cobertura de intervenções de saúde.
A atribuição de renda absoluta aos domicílios, expressa em dólares internacionais, permite comparar níveis semelhantes de riqueza entre países e avaliar o que cada país pode oferecer em termos de saúde para um determinado nível de renda. Estimamos a renda absoluta para os grupos de riqueza dos países (como os decis de riqueza) usando métodos descritos em artigo (Fink et al., 2017), em que a renda é calculada com base em dados do PIB e concentração de renda e na suposição de que a renda tem uma distribuição log-normal.
Resumindo, a distribuição de renda de cada país é estimada utilizando a participação do consumo no produto interno bruto (PIB) e o coeficiente de Gini, o que gera os parâmetros para uma distribuição log-normal (Harttgen e Vollmer, 2013; Lopez e Serven, 2006). Isso permite calcular a renda absoluta média em dólares para cada decil da população (ou qualquer outro percentil de interesse). A seguir, as famílias na amostra da pesquisa são classificadas em grupos de acordo com o índice de riqueza, atribuindo-se a cada grupo o valor em dólares correspondente ao mesmo decil da distribuição de renda. A renda é expressa em dólares internacionais constantes de 2011, ajustados pela paridade do poder de compra.
Abaixo, apresentamos um exemplo de como isso pode ser aplicado na análise. A figura ilustra o índice de cobertura composto (CCI, uma média ponderada de oito indicadores-chave de SRMNCA+N) para países selecionados que possuem baixa renda entre seu quintil mais pobre. Podemos observar que alguns países apresentam um desempenho significativamente melhor em termos de cobertura do CCI, mesmo em níveis de renda semelhantes (Barros et al., 2020).
Nesta página, é possível fazer o download das estimativas de renda absoluta para os quintis e decis de países que têm pesquisa DHS ou MICS.
Além disso, disponibilizamos um exemplo de conjunto de dados sobre renda absoluta e cobertura de partos assistidos por profissionais capacitados para Egito e Bangladesh.
Índice de cobertura composta por renda absoluta em vários países de baixa e média renda
Índice composto de cobertura por renda absoluta em diversos países de baixa e média renda